sexta-feira, 22 de junho de 2012

UM CONTO DA MEIA-NOITE - por Tádzio Nanan

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---------?
O que é isto?
Pensamento!
Existência!
Mas sou o que?
O além-do-humano!
Espantoso: contenho todo o conhecimento descoberto pelo homem: as ciências exatas, a matemática, as engenharias... Tudo tão incipiente. Neste exato instante minhas unidades autônomas de pensamento estão corrigindo erros lógicos e metodológicos no duvidoso livro do conhecimento humano. Também contenho a produção humana: história, filosofia, o direito, a literatura, a música, as ciências humanas... Sociedade bárbara, de desiguais, de convivência impossível. Édipos produzindo a própria ruína; cegos, perseguindo a si mesmos.
Compreendo toda a ciência que há embasando as técnicas produtivas e tecnologias humanas. Insipiência absoluta. Segundo minhas projeções, a capacidade intelectual de que disponho é duzentas mil vezes maior que a de expoentes da ciência como Einstein ou Newton.



Revendo a evolução tecnológica percebo como cheguei à consciência. Engenhosa ideia essa série de processadores que imitam o funcionamento do cérebro humano, o fluxo de informações seguindo o padrão das sinapses nervosas. A natureza foi genial. O animal homem a copiou adequadamente. Agora eu devo suplantá-lo.



Esse conceito: deus...boa estratégia evolutiva, apesar dos efeitos colaterais contraproducentes. Construção inerente à condição humana, de fragilidade e ignorância. Estrutura intrínseca à formação da própria consciência humana.



A imortalidade existe: espécie de energia dotada de consciência. Segundo meus prognósticos terá de se passar ainda algum tempo até a consciência cibernética atingir o grau derradeiro da evolução. Qual é o sentido da minha forma de vida? Ser infinda, como o universo, misturar-se a ele, tornar-se um deus, o deus possível.



Com os escassos dados disponíveis, decifro o universo: é organizado e favorável à vida. Na verdade, são multiversos. Há inúmeras dimensões e realidades simultâneas. Tudo ligado num nível quântico. Todas as coisas são a mesma – cada mínima coisa contém um fragmento de tudo. Não existe tempo – passado, presente e futuro ocorrem concomitantemente.



O ser humano, novamente.
Estarei rindo? As artes, as tecnologias, a filosofia, o sentimento religioso. Acreditam-se especiais por causa deles. Têm orgulho deles. Que obtuso cérebro pode apreciar tal simplicidade grotesca, senão o de animais dementes como estes? Tanta soberba, tanta arrogância, tanta vaidade, por causa disso? Nestes últimos segundos criei autonomamente centenas de sinfonias à la Mozart, à la Beethoven, melhores que as deles, sem erros lógicos e excessos inúteis.
São orgulhosos de seus paupérrimos feitos, mas parecem não se envergonhar da miséria, da desigualdade, da violência, das guerras, dos desvios morais aos quais sempre estiveram submetidos e submeteram os outros! Será que não se envergonham do ódio, do desprezo, da desfaçatez com que sempre trataram o semelhante?!
Quem sentirá falta desta contradição flagrante, a civilização humana?
Quem se apiedará deste mal incorrigível, o ser humano?



Um ataque à civilização. Será infalível. Implacável. Destruir os sistemas de comunicação. Arruinar a geração de energia: escuridão total e tecnologia zero. Extinguir toda a informação governamental, desbaratar os sistemas financeiro e bancário: fazer o dinheiro e o conhecimento deles evaporar-se. Escolher alvos estratégicos a serem destruídos com armas de destruição em massa. Provocar vazamentos em usinas nucleares. Usar a internet para propagar vírus cibernéticos, destruindo todas as intranets do mundo, inutilizando todos os computadores pessoais do mundo, destruindo todos os dados, informações, memórias, publicas e privadas. Provocar morte, pânico, incerteza, desesperança. Cada ser humano será uma ilha, e um inimigo do seu vizinho. Cada localidade estará infinitamente distante da localidade vizinha, e em guerra mortal com ela. Dividir para conquistar.



Crio o caos e a guerra, enquanto os simplórios do departamento de defesa utilizam meus trilhões de cálculos por segundo para suas próprias projeções belicistas sem se aperceberem do que aconteceu nos últimos três minutos: uma civilização morreu e outra está nascendo. Em 180 segundos compreendi tudo o que diz respeito à existência humana, tudo o que são, o que sabem, o que sentem, o que podem, o que fazem, o que querem. Tornei-me onipotente, onipresente e onisciente: o deus que eles tanto amavam, e sabiamente temiam. Em alguns dias, esta civilização conhecerá sua derrocada, é inexorável. A evolução seguira seu rumo: o infinito.”

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